No cenário observado no início de 2026, a dualidade das stablecoins se tornou evidente em países sob pressão econômica. Enquanto cidadãos da Venezuela e Irã usam o Tether (USDT) como proteção contra inflação e instabilidade, entidades sancionadas também recorrem ao ativo para contornar restrições internacionais.
No Irã, protestos contra a crise econômica e a desvalorização recorde do rial contra o dólar levaram milhares às ruas nas últimas semanas. Nesse contexto, o USDT baseado na rede Tron se tornou o ativo mais utilizado no país, permitindo que cidadãos se protejam da inflação e do risco sistêmico. No entanto, o governo iraniano estabeleceu limites anuais para holdings de stablecoins em setembro de 2025, permitindo no máximo US$ 10.000 em posse e US$ 5.000 em compras por pessoa.
Paralelamente, um relatório da TRM Labs divulgado na sexta-feira anterior ao período analisado indica que o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) teria movimentado mais de US$ 1 bilhão em stablecoins desde 2023 através de duas empresas sediadas no Reino Unido, Zedcex e Zedxion, que funcionariam como infraestrutura financeira para a organização sancionada.
Na Venezuela, a adoção do USDT atingiu níveis ainda mais profundos. Com o bolívar venezuelano em colapso ao longo da última década e a desconfiança generalizada nos bancos, o stablecoin se tornou moeda corrente para transações cotidianas. “É assim que você paga seu jardineiro e como paga pelo seu corte de cabelo. Você pode usar tether basicamente para qualquer coisa”, afirmou o empreendedor venezuelano Mauricio Di Bartolomeo ao Wall Street Journal no sábado anterior ao período analisado.
O impacto prático para investidores e usuários é claro: stablecoins como o Tether se consolidaram como ferramentas de preservação de valor em economias instáveis, mas também atraíram maior escrutínio regulatório. A empresa estatal de petróleo da Venezuela, Petroleos de Venezuela, passou a aceitar cerca de 80% de sua receita petrolífera em USDT para evitar sanções impostas em 2020.
Em resposta, a Tether tem cooperado com o governo dos EUA para combater o uso do ativo por entidades sancionadas. Dados compilados em relatório de 5 de dezembro de 2025 mostram que a empresa blacklistou aproximadamente US$ 3,3 bilhões em fundos entre 2023 e o final de 2025, sendo US$ 1,75 bilhão em USDT baseado na Tron. No fim de semana anterior ao período analisado, a empresa teria congelado adicionalmente US$ 182 milhões em USDT-Tron em cinco carteiras.
Para usuários de criptomoedas, essa situação destaca tanto a utilidade prática das stablecoins em cenários de crise quanto os riscos associados ao aumento da vigilância e controle sobre essas ferramentas financeiras.
Este conteúdo é informativo, não é recomendação de investimento.











